segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Adeus, primavera!

Deveria tê-la abraçado por mais tempo. Impedido que o vento deixasse-a mais fria. Deveria ter olhado nos olhos, sentido o perfume, me sensibilizado com a pele – sussurrou cabisbaixo, sentado no terceiro degrau em frente a sua casa. Sustentava a cabeça com o braço trêmulo. Tinha um olhar inquieto, uma respiração medrosa, mãos pálidas.

Lembrava-se constantemente da tarde nublada, mal vivida. Passava um curta-metragem: os passos acelerados, mãos tensas. Seus olhos buscavam algo ou alguém. Encontraram. Não acreditaram. Mas estava ali. Tímida. Braços voltados para baixo, dedos entrelaçados. Uma calça jeans; blusa lilás com estampas florais; sandália fechada com um laço. Percorreu todo o seu corpo, não deixou passar nada despercebido.

Descambou para uma sala vazia. As paredes pareciam cercá-lo, sufocá-lo, pressioná-lo a sair dali. Pernas bambas, tão bambas e bobas quanto ele.
Estavam dentro de um mesmo prédio, dentro de um mesmo dilema, confusão. Paixões. Diferentes, ardentes, assustados. Ela por estar num lugar estranho, sozinha dentro de si. Olhos vibrantes, corpo tenso.

Voltou. Desenhou cada gesto, cada ação que daria. Pôs em prática, mas não conseguira perfeição. Ansiedade. Cada vez mais próximo. Perfume. Fechou seus braços em torno dela, fechou seus olhos, entrelaçou seus dedos. Pulsação. Voltou-se para ele. Olhares. Ofereceu-lhe um abraço. Aceitou sem pestanejar.
Admiraram-se durante alguns segundos. Sem mais ter o que falar despediu-se momentaneamente dela. Tchau, disse quase sussurrando. Balançou a cabeça como se quisesse que ele voltasse, que permanecesse ali e apresentasse-a àquele mundo novo.

Voltou rapidamente para a sala. Sentou-se e pôs-se a pensar nas próximas ações. Lembrou-se de percorrer o prédio, conversar com alguns amigos, tentar passar o tempo e esquecer por algumas horas que ela estava ali. Afinal, não pudera fazer nada mais do que já havia feito.
Eram dois jovens aparentemente imiscíveis.

Conversou, riu, distraiu-se. Dentro de uma das salas disponíveis juntou-se com amigos e pôs-se a falar bobagens - coisas de adolescente. "Prefiro a morena", declarou o ruivo magro a todos da sala. Referia-se a uma das visitantes que fora prestigiar a apresentação musical de uma amiga. Assim que ouviu ‘morena’, deu-se conta de que havia passado duas horas e já era tempo de retornar para o térreo, onde já deveria estar.

De dois em dois degraus. Olhos arregalados, pernas nervosas, coração acelerado.
Viera de encontro a ele. Sentaram-se num muro baixo. Abraçou a bolsa, mas o desejo era de olhar bem no fundo dos seus olhos, apertar seus dedos contra os dele, passear por cada parte de seu corpo e dizer-lhe, "Perdão. Menti todo esse tempo. Tudo que faço é perder tempo, uma ilusão. Talvez, agora eu perceba, joguei fora uma doce paixão."
Controlou-se. Fixou seu olhar na multidão, uma multidão que a deixava impaciente - quanto barulho. Centenas de pernas, braços, bocas, orelhas... Centenas de vozes.
Algumas falas – àquelas que são ditas quando estão sem jeito, ou sem coragem:
- Imaginei que não viesse.
- Pois é, estou aqui - respondeu friamente.

O tempo, que não poupava esforços, demonstrava deleite.
Um minuto por segundo, uma hora por minuto.
À tarde se despedindo, os amigos se despedindo.

Adeus, primavera.

Um pouco mais soltos, próximos e amáveis.
Sempre à frente dele, segurou sua mão esquerda e pôs-se a puxá-lo para o outro lado da rua.
"Calma! Estou jovem para morrer", resmungou sorridente.

Papearam sobre ele, sobre ela, sobre os outros... Menos sobre os dois de uma única vez – se é que o leitor me entende – apenas conversas batidas, mastigadas, chatas.

Entre conversas, risos, uns segundos de silêncio, deram por si que o destino final estava ali.
Mudo. Mão direta no peito – talvez um hino, uma oração, um pedido - olhar no horizonte, sem coragem. Indo contra o seu desejo, aguardando um fim: que ela partisse de uma só vez dali.
Contraditório, também pensei.

Apressada, vasculhou a bolsa cheia de trecos e pegou o dinheiro da condução.
Mais próximos do fim. Um pouco distante o ônibus ousara acelerar mais e mais, indo, talvez, contra a vontade dos dois.

Adeus, morena!

Aberto os braços, os sorrisos. Um abraço apertado, com medo, com timidez.
Um adeus singelo, sem coragem, sem amor, sem paixão. Sem.
Tudo estava sem: sem sal, sem açúcar... Sem eles.
Adeus, um abraço apertado para guardar o momento. Um calafrio demorado para não esquecer jamais.
Adeus, morena! Adeus...




Jônatas Mário Morais.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

O garoto da sunga vermelha

Tem medo de cair na piscina, medo de ir até o fundo.
Tem medo da vida, medo do desconhecido.
O garoto enfrenta a vida de sunga e toca. Enfrenta a vida com frio, com medo... mas ele enfrenta a vida. Se joga de cabeça na piscina, se joga de cabeça na vida. Abre os olhos debaixo d'água, vê tudo distorcido, vê a vida embaçada.
Nada todas as manhãs, vive todos os dias. Enfrenta a vida com chuva ou sol, mas enfrenta a vida. Nada em qualquer tempo. Faça chuva ou faça sol.. mas ele está lá, nadando.
Na piscina ele se sente livre, na vida se sente triste.

A vida nem sempre amacia, a vida nem sempre conforta.
A vida não te dá, na maioria das vezes, a sensação de estar flutuando.


Jônatas Mário Morais.

domingo, 5 de setembro de 2010

Ardente

Segue arrastando o velho par de chinelos ladeira abaixo.
Chuta cada pedra que encontra no caminho, sente uma a uma ferir os dedos.

Um senhor aparentando quarenta anos - jovem ainda - caminha pela vida sem destino. Mais um louco gastando chinelo na cidade. Mais um velho sem uma poltrona confortável. Deve ser mais uma criança abandonada, mais um jovem sem paixão, sem pais, sem afeto.
Agora vejo um quarentão acabado, sem fome de viver, sem pulso, com o corpo gelado. Percebo um corpo vazio, sem alma. Um quarentão sem ânsia de viver, amar, sorrir, dançar, pintar, escrever, namorar: ser feliz!

Senta na calçada, encosta o corpo velho numa árvore. Tira a cachaça de uma sacolinha rasgada, suja, fedorenta. Retira a tampa apressadamente, com a mão direita vira a garrafa na boca, com a esquerda segura a tampa - irá guardar alguns goles pra depois - engole o líquido ardente.
Só cachaça para esquentar-lhe o corpo.

Dentro do carro, enfrentando um engarrafamento tremendo, observei cada atitude daquele quarentão - estou chutando a idade - mas aos poucos me distancio dele, o engarrafamento vai acabando e eu vou seguindo.
Para trás ficou uma criança, um jovem, um quarentão. Um velho sem alma, sem fome, mas com cede de cachaça forte.
Cachaça. Beberei um pouco cachaça assim que chegar em casa. Uma cachaça para esquentar meu corpo.


Jônatas Mário Morais.

sábado, 4 de setembro de 2010

Assim

Não quero uma noite chata. Quero sexo, quero bebida. Quero teu corpo. Quero o melhor motel. Vamos transar até desmaiar. Quero praticar todas as fantasias, usar de todas as maneiras teu corpo. Quero te usar até o último suspiro.


Jônatas Mário Morais.

Corre, Corrente, Corredor.

Mais uma noite de sábado aproxima-se. Junto com ela chega o vento, que avança pela janela sem pedir permissão. Este mesmo vento que tocou o rosto de tantos andarilhos.
Sim, este vento é diferente. Avança pela janela, acaricia o rosto, arrepia o corpo.
Este mesmo vento traz o perfume da minha amada. Traz a lembrança de uma tarde distante, de um abraço desconsertado.

A janela continua aberta, como uma televisão, ela mostra o mundo. Sem qualquer pudor me atrai para a perdição da rua, para as garotas devassas. Me apresenta para a noite da alegria, dos instintos selvagens e sexuais.
Fico sem ação diante de tantas mulatas, loiras, ruivas... tantas mulheres! É um aglomerado de coxas, bocas, braços, bundas... carne!
As pernas ficam bambas só de imaginar estar com uma daquelas... Ah, quantas mulheres! Mesmo estando diante de tanta carne, sinto que não estou contente. Mulheres, sexo, cachaça e música não são o bastante.

Preciso voltar pra casa, preciso sentar na cadeira em frente a janela.
Preciso sentir o vento acariciar meu rosto, sentir minha amada a meu lado.
Preciso voltar a minha companheira nostalgia.


Jônatas Mário Morais.