segunda-feira, 26 de abril de 2010

Apartamento 601

Entrelace seus dedos nos meus, sobreponha teu corpo ao meu. Alise a minha nuca, como uma brisa que toca o meu rosto a beira da praia. Sinta os meus cabelos alisando teu peito, atrite seus pêlos aos meus, perceba meus pés suados, trêmulos... E meu corpo arrepiado. Sinta meu respirar ofegante, meus calafrios cada vez mais constantes. Abrace-me forte. Olhe nos meus olhos tão penetrantes. Encaixe teus lábios nos meus, beije-me lentamente suave. E num último sentimento mútuo, entremos num estado indescritível.


Jônatas Mário Morais

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Glória!

Catorze dias em alto mar,
Em pleno desespero,
Fazendo de tudo pra não afundar,
Enfrentando meus maiores medos,
Tragado pelo vazio.

Inquieto e profundo,
Finalizando o meu orgulho,
Enfraquecendo meus desejos,
Conhecendo os meus demônios,
Tentando não morrer.

Jônatas Mário Morais

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Vendaval

Estou como o tempo lá fora, completamente frio, instável e nublado. Numa profunda frieza. E não há temporal maior que o meu, não há tempestade maior que a minha, não há ventos tão frios quanto os meus. Estou completamente frio. E não há gotas mais fortes que as minhas lágrimas, não há céu mais vermelho que os meus olhos, não há pensamentos mais nublados que os meus. Não há tempestade maior que a minha. E não há nuvens mais densas que os meus sentimentos. Não há tempo mais instável que eu, não há temporal mais forte que o meu, não há noite mais fria que eu.


Jônatas Mário Morais

domingo, 7 de março de 2010

É noite

E a chuva cai, os pingos molham a janela. Eis que está na minha frente, parada, fria, transparente, molhada. Vejo o céu escuro, ouço os relâmpagos, sinto o tremor... Percebo a raiva dos céus. E tudo para. Os relâmpagos, os clarões. Menos a chuva. As gotas, que no começo eram as mais finas, tornam-se as mais grossas. Caem por cima dos objetos, no chão. As gotas alisam a janela, o chão. E por alguns instantes apenas a chuva, o choro dos céus. E tudo volta de repente. Vejo outra vez o clarão, ouço outra vez o trovão. E todo o céu ilumina. A chuva se torna mais forte, as nuvens mais escuras, os sons cada vez mais fortes, o clarão cada vez mais incessante. Qual o som da rua? A rua está calada, nua, crua... A rua está molhada. E como está a janela? Parece estar chorando. Os pingos continuam a molhá-la. A emocioná-la.


Jônatas Mário Morais

sábado, 2 de janeiro de 2010

O que eu não sei

Agora sim posso sair. Andar por aí sem ter ninguém para me impedir. Levanto do sofá, caminho até a porta. Não tenho mais escolta. Caminhando pela rua escura me deparo com uma velha caduca que começa a me atormentar. Me pergunta para onde vou, insiste em me atazanar. Eu, sem muita paciência, dou um empurrão na velha, volto a caminhar. Mais pra frente encontro um jovem doente que vive a se drogar. Indaga como estou, diz que sou o seu salvador. Eu já cansado, depois de um longo dia de trabalho viro o rosto. Mais uma vez volto a caminhar. Com a cabeça baixa percebo que sou um babaca, insisto em afastar aqueles que só querem me agradar.


Jônatas Mário Morais.