quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Calmaria

Passou. Afirmo sem o menor arrependimento, angústia ou aperto forte no coração, como já tivera outrora. Já não trago comigo aquele sentimento profundo que nutrira por ti, pois deixei tudo para trás, como se nunca tivesse vivido.

Acabei por jogar todo o amor em sentido oposto ao meu caminhar, e o vento encarregou-se  de encobri-lo com areia. E o mar envolveu-me de tal maneira que afagou meu espírito, meu corpo. Flutuei por sobre as marolas calmas e tranquilizantes que ousavam tocar-me o corpo. Descansei em paz durante séculos, tão somente a tua espera.


Jônatas Mário Morais

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Parte de nós

Ainda busco seu cheiro, suas roupas... qualquer coisa que faça você estar mais próxima de mim. Permanecer nesta casa vazia é tenso. Ocupar esta cama de casal é impossível, são necessários dois corpos, juntos, como sempre estivemos.

As quintas à noite eram reservadas só para nós. Abríamos duas ou três garrafas de uísque, fazíamos o jantar, juntos, e ainda tragávamos um bom Hollywood na varanda, onde costumávamos deitar e admirar a rua mansa e a lua cheia.
Nada mais será possível, meu bem. Ficaram apenas resquícios de uma paixão ardente, que me deixou atordoado, numa vibe completamente nova e alucinante.

Neste momento, reservo-me no quarto, bebendo, fumando e escrevendo a última carta que traz detalhes que só nós sabíamos, segredos bons, perigosos e excitantes. Verso sobre um amor puro, cristalino, que só me trouxe paz e alegria. Agora, meu bem, trago este cigarro como se estivesse absorvendo a minha, a tua, a nossa vida.


Jônatas Mário Morais

terça-feira, 13 de setembro de 2011

Infinito

As folhas já não vibram como antes.
Já não há palavras no peito,
nem amor.
E tudo ficou perdido na imensidão do tempo.

Jônatas Mário Morais.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Traços à noite

E escreveu cuidadosamente na parede do quarto, atrás da cabeceira:

Irei orar por ti todos os dias, também irei lembrar de todos os abraços, dos passeios, dos cigarros tragados por nós dois, à noite, na pracinha do bairro. Não se preocupe, pedirei por nós dois, sempre, mesmo você não me pertencendo mais - se é que um dia me pertenceu.

Que seja feliz, é o que me importa. Egoísmo é sentimento de fracos, de pessoas que não sabem o que é amar. E eu te amo tanto que... Lembrarei dos versos que fizemos à beira mar, na noite de domingo, dia dos namorados. Éramos tão bons que não precisávamos escrever nada, tudo ficava marcado na memória, pelo menos na minha sei que ainda está, quer ver? Aliás, não. É melhor não. Tenho certeza que o sentimento ainda permanece aí, dentro de ti.

É isso, espero que sejas feliz. Mas se não for, pode me chamar que retornarei imediatamente - ou não. Caso eu não possa ir, me ligue, de preferência às três da manhã, para uns cigarros, uns goles de uísque, alguns risos e uma saudade profunda dos nossos toques.

                                            Maio, 28, 1996. 


Jônatas Mário Morais.
                       

terça-feira, 31 de maio de 2011

Café e amor

As mais ásperas palavras percorriam cada cómodo da casa, saindo da sala, passando pelos corredores e chegando até o quarto. E assim, meu cérebro processava cada informação de uma forma que eu não conseguia compreender.
Corri imediatamente para o banheiro, na esperança de permanecer em silêncio, sem fumaça, barulho de trânsito e os gritos daquela louca que invadiu minha casa. Em vão. Começou a bater e soltar os palavrões mais assustadores. Permaneci ali. Acendi um cigarro, o único que sobrou. Porque os outros foram jogados na lata do lixo, minutos antes do caminhão passar, às sete da manhã de sexta-feita.

O fim de semana estava sendo muito bom, mas para ela. Afinal, conseguia despejar todas as angústias que sentia. Mesmo eu não sendo o culpado das desilusões que vinha tendo em casa e na faculdade. Pois dizem que o namoro tem que permanecer firme em todos os momentos, até naqueles em que uma das partes está confusa, deprimida, e, pior que tudo isso ser mulher e, consequentemente, estar na fase da tpm.

No entanto, nunca soube que eu guardava uma garrafa de vodka no fundo do armário do banheiro. Não só vodka, mas uísques e uns charutos. Mas não havia copo. Puta que pariu! Como pude esquecer do copo? Afinal, detesto beber diretamente na garrafa.
Vasculhando o armário acabei encontrando um antisséptico bucal. É, pode parecer porco, mas é álcool por álcool.

- Abra essa porta, canalha! - gritou com toda a força - Que cheiro é esse? É vodka? Charutos?

Não respondi. Continuei bebendo e fumando. A fumaça escura do cigarro tornando o espaço denso, carregado. Passei para o charuto cubano, ah! maravilha. Uma vibe positiva, mesmo com toda aquela algazarra.

-  E agora, já passou pro charuto? Você é um verme! Pensa que me engana? Porra, saia deste banheiro, filho de uma puta! Vambora! Vai ficar fugindo?

Socava a porta e, logo em seguida, seguiu para o quarto. Pegou uma maço de cigarro, correu para a varanda e sentou-se no muro. Aos prantos, chamava-me suavemente, um pouco rouca também.

Tenso é saber que só por causa de uma namoradinha de infância ter pedido um selinho - como fazíamos quando criança -  próximo ao meu trabalho, no shopping, ela encasquetou que estávamos tendo um caso. Puts! Mulher é foda.

Depois de alguns goles de uísque, acabei por ficar um pouco frágil, meloso e fui abraçar, beijar e dar o velho ombro amigo - como tem que ser, não? -, como bom namorado que sou.
Levei junto a garrafa de vodka e uísque. Mas não divido meus charutos com ninguém, não mesmo! Bebemos, brincamos, rimos e assim passamos a noite inteira de sábado, deitados na varanda ao som de Cazuza:
                                         
                                              "Pra que buscar o paraíso
                                               se até o poeta fecha o livro
                                               sente o perfume de uma flor no lixo
                                               e fuxica, fuxica."    Ritual - Cazuza


Jônatas Mário Morais